Antagônicos que somos

Antagônicos que somos

Quanto mais buscamos concretizar o que nos faz bem, mais trabalhosa é a nossa tarefa em conseguir. É um paradoxo, mas nosso maior temor é justamente conquistar o que desejamos. Não é lógico, eu sei. A explicação para isso está no medo que temos de ser feliz.

Por Arno Duarte

Você foi ao nutricionista, se deu conta que está acima do peso, precisa moderar a alimentação e praticar exercícios. Tem consciência de que isso é importante para a sua saúde e bem estar. Faz a matrícula na academia e, quanto vai começar os treinos, aceita o convite para um happy hour. Toma todas, degusta uns petiscos e volta pra casa arrependido de ter adiado o início das aulas.

Essa história pode variar de personagem, ou mesmo de tema, mas é conhecida por muita gente. Talvez não seja a academia, talvez seja a busca por um novo emprego, talvez seja começar a escrever um livro, talvez seja ligar para aquela pessoa que você está a fim. Escolha o que você quiser imaginar que poderia (ou pode) te realizar. Exemplos não vão faltar.

Registramos na memória todos os acontecimentos de nossa vida. Coisas que vivemos na mais tenra infância, sentimentos, lembranças profundas, tudo é acessado a todo instante em nosso inconsciente, mesmo quando não percebemos.

O ser humano tem uma capacidade imensa de registrar sentimentos negativos. Temos extrema habilidade em proteger a nós mesmos do que não nos faz bem. É o tal instinto de autopreservação, muito útil, convenhamos, quando estamos em situações de risco. Só que este instinto também nos preserva de experimentar novamente qualquer coisa que nos remeta à possibilidade de sentirmos dor, tristeza, frustração ou medo, e com certeza, todos nós já passamos por eles em algum momento da vida.

Na vida adulta, pequenos estímulos trazem à lembrança emoções antigas, remotas, que são revividas como se fossem atuais. A pessoa observa o presente através dos olhos do passado, se utilizando de sentimentos, filtros e crenças, vividos em outra época, para a tomada de decisões de ter ou não uma atitude e mudar uma situação.

Quando visualizamos o que realmente queremos, parece que algo nos trava, inventamos desculpas, não enxergamos o óbvio, procrastinamos ações e temos atitudes que nos levam justamente ao oposto do que desejamos. É o inconsciente trabalhando.

Os motivos são os mais variados, desde medo de não ser capaz, de errar, de se arrepender, de dar certo, vergonha por ser o melhor em algo, frustração por não conseguir, tristeza por vencer os outros, medo de se entregar de coração e se machucar, e assim por diante.

Para a sua mente, a realidade é reviver aquele sentimento que não foi bom no passado, não existe outra possibilidade. E, no seu modo de ver, sua reação também é a única possível: não caminhar em direção ao que te realizaria, evitando assim a possibilidade de sentimentos de dor e perda.

E todos estes fantasmas se manifestam justamente no que você mais deseja, pois este é o ponto realmente relevante para você. Os medos não vão surgir em coisas comuns, pois se estas derem certo ou errado, tanto faz. Não estão conectadas com suas mais importantes vontades.

Tomar consciência dos estímulos e emoções que nos motivam ou paralisam é o primeiro passo para mover energia para a realização do que queremos. Reconhecer que fomos frágeis, que já sofremos no passado, e que esta dor permanece em nós, vai possibilitar perceber a realidade atual de forma diferente, mais madura, permitindo viver como adulto protagonista de escolhas e atitudes nesta época, construtor de um futuro que avança corajosamente, mesmo com medo.


ARNO DUARTE é coach e consultor organizacional na Favoo Desenvolvimento Humano. Adora o que faz, mas não deixa de se aventurar em peças de teatro, videoclipes, música, fotografia, meditação ou em qualquer coisa que estimule expressão e criatividade. Acredita que o sentido da vida é amar e se divide entre projetos pessoais e profissionais buscando a felicidade autêntica nas 30 horas do seu dia.

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